Ganhadores do Nobel se unem pelo projeto.
O telescópio espacial James Webb vai escapar da "morte" decretada pelo Congresso americano e estará funcionando plenamente em 2018, aposta o administrador da Nasa, Charles Bolden. "O orçamento proposto pelo presidente Obama, que permite continuarmos com a construção do James Webb, será aprovado", disse ele em entrevista exclusiva à Folha.
O telescópio seria um sucessor mais potente do Hubble, capaz de detectar objetos e estrelas ainda mais distantes e antigos. Mas a construção já sofreu atraso de quatro anos e estourou o orçamento, que deve acabar quatro vezes acima do planejado, em US$ 8,7 bilhões.
O Congresso dos EUA, em era de vacas magras, propõe acabar com o telescópio para cortar gastos. Bolden falou sobre o tema em São Paulo, após assinar dois acordos de cooperação com a Agência Espacial Brasileira.
Folha - O telescópio James Webb continua sob ameaça de corte em seu financiamento?
Charles Bolden - Quando me tornei diretor da Nasa [em 2009], descobrimos que o telescópio não estava bem do ponto de vista fiscal e de cronograma. Então mudamos o gerenciamento. Eu puxei para mim a atribuição de arrumar financiamento para ele. Nós submetemos um replanejamento dos gastos e agora contamos com o telescópio funcionando em 2018.
Mas o financiamento para o telescópio foi aprovado pelo Congresso?
A Câmara e o Senado ainda estão discutindo. Nós esperamos a conclusão do orçamento de 2012. Estou muito confiante de que o orçamento proposto pelo presidente Obama, que permite continuarmos com a construção do James Webb, será aprovado.
Havia expectativa do governo brasileiro de que o Inpe e a Nasa iriam assinar um acordo para parceria na construção e lançamento de satélites, e isso não ocorreu.
Nós assinamos dois acordos-quadro com o Brasil, um para pesquisa de precipitação pluviométrica - queremos que o Brasil participe usando os dados para suas necessidades aqui-, e outro para usar dados dos dois países para aumentar nossa compreensão sobre o ozônio e seus efeitos sobre o clima. Os dois projetos planejam usar ou usam satélites que já estão em desenvolvimento, então nós não vamos trazer um novo satélite.
O senhor foi astronauta por 14 anos, participou de quatro missões do ônibus espacial e ajudou a instalar o Hubble. Não sente falta do espaço?
Eu era muito mais jovem, intrépido, doido. Quando deixei de fazer isso, era hora de fazer coisas novas, abrir caminho para outras pessoas. Mas eu estaria mentindo se dissesse que não gostaria de voltar para o espaço.
Ganhadores do Nobel se unem pelo projeto - Um pelotão de cientistas, incluindo três ganhadores do Prêmio Nobel em Física, reuniu-se nesta semana com uma senadora para discutir como convencer o Congresso dos EUA a aprovar a verba extra necessária para salvar o telescópio James Webb. Os cientistas, que inauguraram uma réplica do telescópio exposta no porto de Baltimore, pareciam estar conformados com o fato de que o novo observatório vai engolir a verba de outros projetos importantes.
Pelo plano atual da Nasa, metade do dinheiro viria de um novo aporte de verba federal, e a outra metade seria levantada dentro da própria agência espacial, com cortes em outros projetos. O Lisa, um satélite para detectar as "ondas gravitacionais" previstas pelas teorias de Einstein, por exemplo, já foi cancelado. O WFIRST, um telescópio para captar radiação infravermelha, também não deve vingar.
"Agora nós precisamos separar o que é essencial daquilo que nós gostariamos de fazer, mas não é essencial", disse à Folha John Mather, cosmólogo do Centro Espacial Goddard, da Nasa, um dos Nobel que engrossam o coro para o governo dos EUA salvar o James Webb.
'Fatal' - Segundo ele, mesmo uma interrupção no financiamento do plano de lançar o telescópio pode ser fatal. "Se pararmos o projeto agora, corremos o risco de desperdiçar todo o esforço já feito." Adam Riess, ganhador do Nobel de Física de 2011, afirma que o James Webb é essencial para resolver o maior enigma atual da física. O cientista recebeu o prêmio pela descoberta da chamada energia escura, uma entidade que representa 73% da composição do Universo, mas cuja natureza ninguém ainda sabe descrever direito.
"O James Webb poderá enxergar galáxias que têm um centésimo do brilho daquelas que o telescópio Hubble é capaz de ver, e isso nos permitirá ver um Universo 1 bilhão de anos mais antigo", diz Riess. "Ele vai nos ajudar a mapear a taxa de expansão do Universo, o que será essencial para entender a energia escura."
Barbara Mikulski, senadora democrata de Maryland que defende o projeto no Congresso, diz que já tem apoio para fazer a proposta passar no Senado americano. "Na terça-feira, vamos passar um orçamento federal que vai destinar US$ 500 milhões para levar o James Webb ao espaço", prometeu.