A maior câmera digital do mundo não vai fotografar festas de família nem ensaios de moda em revistas femininas. Nomeada Pan-Starrs 1 (PS1), ela foi instalada em um telescópio com espelho de 1,8 metro na montanha de Haleakala, no Havaí com um objetivo muito definido: detectar e determinar as órbitas de asteroides e cometas que possam colidir com a Terra, ameaçando a vida em todo planeta.
Como não emitem luz própria, estes objetos são difíceis de serem vistos e a câmera, com 1,4 mil megapixels - para se ter uma ideia, as câmeras digitais comuns têm entre 5 e 15 megapixels -, poderá "vêlos" mesmo que tenham um brilho 10 milhões de vezes menor do que é possível observar a olho nu.
Primeira de uma série de quatro equipamentos previstos para entrar em operação nos próximos anos, a PS1 acaba de receber sinal verde após vários testes. Agora, ela começará a fazer aproximadamente 500 imagens do céu por noite, cobrindo uma área também gigantesca em termos de observação, equivalente a cerca de 40 vezes o diâmetro aparente da Lua.
Informação encheria mil DVDs por noite
Toda informação captada pela PS1 (que daria para encher cerca de mil DVDs por noite) vai ser transmitida para o Centro de Computação de Alto Rendimento da cidade havaiana de Maui, onde será analisada por um programa de computador especialmente projetado.
A comparação de cada imagem com outras feitas na mesma noite ou em noites anteriores da mesma área do céu permitirá encontrar rapidamento objetos celestes que se moveram ou cujo brilho variou, um forte indicativo de que se tratam de asteroides ou cometas.
- Ainda que de tamanho modesto, este telescópio tem tecnologia de ponta e pode fotografar uma área do céu equivalente a cerca de 40 vezes o diâmetro da Lua cheia, o que é muito mais do que qualquer outro telescópio deste tamanho em operação na terra ou no espaço - destaca Nick Kaiser, líder do projeto.
O programa, integrado por especialistas de uma dezena de instituições de EUA, Alemanha, Reino Unido e Taiwan é liderado pelo Instituto de Astronomia da Universidade do Havaí.
Os cientistas calculam que, nos próximos três anos, este pequeno e moderno observatório descobrirá 100 mil asteroides e cometas e determinará o risco de colisão com a Terra de cada um deles. Mas a análise dos dados da Pan-Starrs não se limitará à procura de perigosos pedregulhos do espaço.
Além disso, deverão ser catalogadas aproximadamente 500 milhões de galáxias e montado um enorme mapa digital cobrindo 75% do céu visível desde o Havaí.
Para fazer esse trabalho, a câmera está recheada com a mais moderna tecnologia em captação de imagens.
No plano focal da Pan-Starrs fica um conjunto de 64x64 dispositivos CCD, cada um de 600x600 pixels, formando uma área de 40 centímetros quadrados, contra apenas alguns milímetros de uma câmera comum.
E, graças a uma tecnologia denominada "transferência ortogonal de CCD", ela poderá compensar diretamente neste foco as flutuações da atmosfera, obtendo por via eletrônica um efeito similar ao da ótica adaptiva dos telescópios modernos, nos quais os espelhos são movidos para fazer a compensação das distorções causadas pelo movimento da atmosfera nas observações.
A curto prazo, risco de colisão é remoto
Quando os quatro observatórios do projeto estiverem em operação, será possível combiná-los para obter imagens de ainda mais alta resolução, o que possibilitará a detecção de objetos de tamanho menor, feitos de material mais escuro, e por isso menos reflexivo, ou que ainda se encontrem a distâncias maiores da óbita terrestre.
O projeto Pan-Starrs (acrônimo em inglês para "telescópio panorâmico de levantamento e sistema de resposta rápida") é o maior em curso dedicado ao monitoramento de objetos do sistema solar próximos à Terra.
Embora seja considerada remota a possibilidade do choque de um asteroide de grandes proporções com o planeta num futuro próximo, a colisão não é impossível, como já demonstra a própria história da vida na Terra. Atualmente, é praticamente um consenso entre os cientistas a teoria de que foi o impacto de uma gigantesca pedra espacial que levou à extinção dos dinossauros, há 65 milhões de anos.