A parceria do Brasil com a Argentina na área espacial foi ampliada, este mês, com o anúncio da retomada do projeto de desenvolvimento conjunto de um satélite pelos governos dos dois países. O Sabia-Mar, que na primeira versão, de 1996, estava projetado para obter informações sobre água, alimentos e ambiente, fará agora a observação global dos oceanos e de regiões costeiras, além de monitoramento do Atlântico nas proximidades do Brasil e da Argentina.
O projeto, estimado em US$ 200 milhões, tem prazo para desenvolvimento em seis anos. O valor será financiado em partes iguais pelos dois países. Só o lançamento do satélite custará US$ 50 milhões, sendo que o restante é destinado ao desenvolvimento, explica o coordenador de gestão tecnológica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e responsável pelo satélite, Marco Antônio Chamon. Os recursos serão administrados pela Agência Espacial Brasileira e Comisión Nacional de Actividades Espaciales, da Argentina.
A missão Sabia começou em 1996 e foi revisada em 1998 com a inclusão da Espanha. Em 2000 foi suspensa com a saída da Espanha e a crise econômica na Argentina, sendo retomada em 2008.
"A ideia é que o satélite seja lançado por um foguete nacional, mas ainda não sabemos se será possível, pois o lançador brasileiro VLS tem capacidade para transportar 300 quilos, enquanto o Sabia-Mar está sendo projetado para 1,2 tonelada", disse Chamon. O Programa de Lançadores Cruzeiro do Sul, coordenado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial brasileiro, poderia ser uma alternativa ao Sabia-Mar, segundo o pesquisador, pois prevê uma família de foguetes para até 2 toneladas, mas ainda está em fase inicial de desenvolvimento.
Com o satélite binacional, Brasil e Argentina poderão fazer o mapeamento das regiões pesqueiras, ver o movimento de cardumes e as áreas mais propícias à pesca, além de apoiar atividades de exploração de petróleo, com informações meteorológicas e observar a cor do oceano para identificar as áreas sujeitas a vazamento de óleo no mar, explicou Chamon.
Inpe testará equipamentos para país vizinho
O Laboratório de Integração e Testes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), único no gênero no Hemisfério Sul, acaba de receber os primeiros sistemas do satélite argentino SAC-D, que foi desenvolvido em cooperação com a Agência Espacial Americana (Nasa). O satélite completo e integrado chegará ao Brasil em julho e permanecerá no Inpe por quatro meses. O equipamento passará por uma bateria de testes, envolvendo ensaios de vibração e aceleração, acústico, vácuo-térmico e de compatibilidade eletromagnética.
A realização dos testes foi acertada por meio de um acordo de cooperação tecnológica entre a Agência Espacial Brasileira e a Comisión Nacional de Actividades Espaciales, da Argentina. O SAC-D é um satélite de observação ambiental, com foco no monitoramento do nível de salinidade dos oceanos. A Nasa, por meio do seu laboratório Jet Propulsion Laboratory, desenvolveu a carga útil do satélite argentino, responsável pelas medições de salinidade nos oceanos. O equipamento, segundo o chefe do laboratório do Inpe, Petrônio Noronha de Souza, também será testado no Brasil.
"A influência dos oceanos na meteorologia é muito grande e o nível de salinidade da água é um dos itens relacionados com a circulação da atmosfera", disse Noronha. "Essas informações serão integradas aos modelos de previsão do tempo e o satélite também ajudará a estudar o impacto da circulação atmosférica dos oceanos sobre o clima."
A empresa argentina Invap, principal contratada do governo daquele país para o projeto de desenvolvimento do satélite, enviou uma equipe técnica ao Brasil para acompanhar a realização dos testes no SAC-D. A empresa também é contratada do Inpe no desenvolvimento do sistema de controle de atitude (sua orientação no espaço em relação a algum sistema de referência) do Amazônia-1. Esse satélite fará a cobertura completa da Terra em menos de cinco dias, mas estará focado na região Amazônica.
O setor espacial no laboratório do Inpe, que envolve os satélites do programa espacial, segundo Noronha, responde por um terço da demanda de serviços no local. O laboratório também atende às indústrias e presta serviços internos para o próprio Inpe e para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.
Em 2009, os serviços prestados pelo laboratório às indústrias, especialmente as do setor automobilístico e de telecomunicações, geraram receita adicional de US$ 5 milhões, de acordo com Noronha. Os recursos, segundo ele, ajudam a manter a operacionalidade do laboratório e os investimentos em novos equipamentos.
A indústria contribuiu, por exemplo, com o projeto de expansão que capacitou o laboratório do Inpe, a partir de 2006, a realizar testes de interferência eletromagnética (câmara anecoica) e de vibração acústica (câmara acústica) em sistemas espaciais de grande porte, não só do programa espacial brasileiro, mas também de outros países.
Quando não existiam as atuais instalações, o satélite argentino SAC-C, anterior ao atual, não pôde ser totalmente testado no Inpe, porque a câmera para testes de interferência eletromagnética que existia na época não comportava um satélite de grande porte. O mesmo aconteceu com o segundo satélite, o Cbers, que precisou ser testado na China.
Outro ganho recente do laboratório do Inpe foi a aquisição de uma câmara de vácuo de grande porte em 2008, da empresa espanhola Telstar, por R$ 10 milhões. O equipamento simula as condições de temperatura e de ausência do ar que o satélite enfrenta quando está em órbita.
Montadoras de veículos e fabricantes do setor de telecomunicações usam regularmente as instalações do laboratório brasileiro para realizar testes de compatibilidade eletromagnética na eletrônica embarcada de veículos, telefones celulares, antenas e outros componentes eletrônicos. Um terço do tempo do laboratório está dedicado à indústria e um terço para a prestação de serviços internos para o próprio Inpe e também para o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial.
O laboratório opera em três turnos para atender às atividades das indústrias e do programa espacial. O terceiro satélite da cooperação Brasil-China, o Cbers-3, também iniciou a fase de testes dos seus equipamentos no laboratório. A Embraer é outra usuária do laboratório, para a realização de testes de qualificação em equipamentos de comunicação instalados em suas aeronaves.