Os astrônomos descobriram um segundo exoplaneta do tipo super-Terra, para o qual determinaram a massa e o raio, o que forneceu dicas vitais sobre a sua estrutura. Ele é também a primeira super-Terra onde foi encontrada uma atmosfera. O exoplaneta, que orbita uma pequena estrela localizada a quase 40 anos-luz de distância, abre novas perspectivas na procura de mundos habitáveis. O planeta, GJ1214b, tem uma massa de quase seis vezes a massa terrestre e o seu interior é provavelmente constituído por gelo de água. A sua superfície parece ser relativamente quente e o planeta encontra-se envolvido por uma atmosfera densa, o que o torna inóspito para albergar formas de vida tais como as que conhecemos sobre a Terra.
Na edição de 16 de dezembro da revista Nature, uma equipe de astrônomos anuncia a descoberta de um planeta em torno da estrela próxima de pequena massa GJ1214. Trata-se da segunda vez que uma super-Terra em trânsito é detectada, apos a recente descoberta do planeta Corot-7b. Um trânsito ocorre quando a órbita do planeta está alinhada da tal maneira que o vemos atravessar a face da sua estrela-mãe. O recentemente descoberto planeta tem uma massa de cerca de seis vezes a massa da nossa casa terrestre e 2.7 vezes o seu raio, ficando em termos de tamanho entre a Terra e os gigantes gelados do Sistema Solar, Urano e Netuno.
Embora a massa de GJ1214b seja similar à do Corot-7b, o seu raio é muito maior, o que sugere que a composição dos dois planetas seja muito diferente. Enquanto que Corot-7b tem provavelmente um núcleo rochoso e poderá estar coberto de lava, os astrônomos pensam que três quartos do GJ1214b seja composto por gelo de água, sendo o restante constituído por silício e ferro.
GJ1214b orbita a sua estrela em quase 38 horas a uma distância de apenas dois milhões de quilômetros - 70 vezes mais próximo da sua estrela do que a Terra está do Sol. "Estando tão perto da estrela hospedeira, o planeta deve ter uma temperatura à superfície de cerca de 200º Celsius, quente demais para que a água se encontre no estado líquido," diz David Charbonneau, autor principal do artigo que apresenta esta descoberta.
Quando os astrônomos compararam o raio medido de GJ1214b com modelos teóricos de planetas, descobriram que o raio observado excede a predição dos modelos: existe algo mais do que a superfície sólida do planeta a bloquear a luz da estrela - uma atmosfera circundante, com 200 km de espessura. "Esta atmosfera é muito mais espessa do que a da Terra, por isso a alta pressão e a ausência de luz excluem a possibilidade de vida, tal como a conhecemos," diz Charbonneau, "mas estas condições são igualmente interessantes, uma vez que podem originar uma química bastante complexa."
"Uma vez que o planeta é quente demais para manter uma atmosfera durante muito tempo, GJ1214b dá-nos a primeira oportunidade de estudar uma atmosfera recentemente formada, envolvendo um planeta que orbita outra estrela," acrescenta o membro da equipe Xavier Bonfils. "Como o planeta se encontra bastante próximo de nós, será possível estudar a sua atmosfera mesmo com as infra-estruturas de que dispomos atualmente."
O planeta foi descoberto inicialmente como um objeto em trânsito, no seio do projeto MEarth, que estuda quase 2000 estrelas de pequena massa no sentido de procurar trânsitos de exoplanetas. Para confirmar a natureza planetária de GJ1214b e obter a sua massa (utilizando o chamado efeito Doppler), os astrônomos necessitaram de toda a precisão do espectrógrafo HARPS, montado no telescópio de 3.6 metros do ESO em La Silla, no Chile. Sendo um instrumento com uma estabilidade sem precedentes e uma grande precisão, o HARPS é o mais bem sucedido descobridor de pequenos exoplanetas de todo o mundo.
"Esta é a segunda super-Terra para a qual a massa e o raio foram calculados, permitindo assim determinar a densidade e daí inferir sobre a sua estrutura interna," acrescenta o co-autor Stephane Udry. "Em ambos os casos, os dados do HARPS foram essenciais para caracterizar o planeta."
"As diferenças em composição entre estes dois planetas são relevantes na procura de mundos habitáveis," conclui Charbonneau. Se os planetas super-Terra estão, em geral, envolvidos por uma atmosfera similar à de GJ1214b, poderá bem acontecer que sejam inóspitos ao desenvolvimento da vida, tal como a conhecemos sobre o nosso próprio planeta.