Notícia
BSN edição 545 (24/12/2009 a 31/12/2009)
sessão ASTRONOMIA NO BRASIL
DIVULGAR PARA EDUCAR: O PAPEL DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NAS ESCOLAS PÚBLICAS DO CEARÁ
23/12/2009


Como conceituar divulgação científica? A tarefa parece difícil mesmo para grandes nomes da ciência no Brasil. Se tomarmos como exemplo a definição do cientista, jornalista e divulgador científico José Reis, falecido aos 94 anos em 2002, veremos quão complicado é o conceito. Segundo o professor José Reis, a divulgação científica não se cristaliza em uma definição, pois isso representaria a redução do próprio movimento de se divulgar ciência e tecnologia. Na opinião do cientista, cabe à divulgação científica realizar duas funções que se complementam: ensinar, suprindo ou ampliando o papel da própria escola e fomentar o ensino.

Infelizmente, a maioria das escolas ainda utiliza métodos defasados no ensino de ciências. Os alunos aprendem ou decoram conteúdos distantes de seu cotidiano. Falta experimentação e vontade de demonstrar aos estudantes a importância da ciência. No entanto, nos últimos anos, essa situação parece estar mudando. Surgem revistas sobre ciência dedicadas a crianças e aumenta o número de clubes de ciência e de astronomia que estimulam a elaboração de experimentos em feiras escolares. Além disso, o trabalho dos museus científicos, como a Seara da Ciência, com as escolas tem se intensificado.

No Ceará, essa mudança já pode ser percebida inclusive no interior do estado. Exemplo disso é a Feira de Ciências das Escolas Públicas Municipais de Limoeiro do Norte, que em 2009 entrou em sua quarta edição, com participação direta de aproximadamente 1.200 estudantes, integrantes de equipes de vinte escolas municipais, e exposição de 363 experimentos.

A feira, que acontece desde 2006, é uma iniciativa da Secretaria de Educação do município. Segundo o coordenador de ciências da prefeitura de Limoeiro, Edgardo de Sousa Bessa, quarenta professores do ensino básico das escolas públicas da cidade são capacitados mensalmente. "Nossa idéia é intensificar a experimentação no ensino de ciências. Durante essas capacitações, abordamos tanto conteúdos teóricos quanto tópicos relacionados à filosofia da educação", afirma Edgardo.

Além dos 1.200 alunos participantes da feira, outros 156 alunos, membros dos núcleos
de ciências do município, realizaram experiências mais complexas, resultados de pesquisas desenvolvidas durante o ano letivo de 2009. Os núcleos são grupos formados em treze escolas por estudantes que dedicam mais tempo à investigação científica. Esses alunos são responsáveis pelo mural da ciência das escolas, que contém matérias de jornais e outros textos escritos por estudantes, e pelo jornal da ciência, que circula nas comunidades onde a escola está situada. Eles também elaboram projetos interdisciplinares, abordando temas relacionados a ciências, história e geografia, e participam de montagens teatrais com roteiros elaborados pela Seara da Ciência ou construídos localmente.

De acordo com Edgardo, a seleção para os trabalhos expostos no evento é feita durante as feiras de ciências de cada escola, que contam com a participação de todos os estudantes do 4º ao 9º ano. Os melhores experimentos receberam trinta computadores, trinta bicicletas e trinta aparelhos de DVDs para os alunos classificados em primeiro, segundo e terceiro lugar, respectivamente. Além disso, medalhas foram entregues aos estudantes e professores e as escolas que ficaram com os três primeiros lugares receberam troféus.

GAEA: Astronomia para todos

Uma iniciativa importante para a divulgação científica no Ceará tem sido o surgimento dos clubes e grupos de astronomia, matéria antes distante do cotidiano dos estudantes. Nesse sentido, o Grupo de Apoio em Eventos Astronômicos (GaeA), criado em 2009, tem tido papel significativo. Leigos, entusiastas, amadores e profissionais de Astronomia podem participar do GaeA através dos vários núcleos de trabalho do grupo, que têm por objetivo difundir a Astronomia, considerada "a mãe de todas as ciências". Nesses núcleos, podem ser encontradas notícias, artigos, dicas e outros materiais relacionados à área de trabalho de cada um (Sistema Solar, Astrofísica Estelar, Astrofotografia, Astrometria, Astronáutica, entre outros temas).

O GaeA possui um projeto chamado Semeastro, voltado para escolas cearenses. Representantes do grupo vão até a escola e oferecem cursos com carga horária pequena. "Após o término do curso, os alunos são convidados a continuar com aulas práticas na própria escola. Dessa forma, surge um primeiro grupo de estudantes interessados que provavelmente será futuro clube de astronomia vinculado à escola", explica o astrônomo presidente do GaeA Saulo Machado.

Saulo ressalta que em dois meses o grupo desenvolveu atividades em três escolas públicas. "Duas estão em processo inicial e uma já está tão avançada que a diretoria já demonstra interesse em montar um laboratório astronômico e participar da Olimpíada Brasileira de Astronomia no ano que vem. Esses cursos são de custo baixo, o mais caro por aluno é de apenas dez reais, taxa que serve para pagar o custo do material didático. Após as aulas, o único custo adicional para os alunos são as fotocópias das atividades".

Além dos cursos, o GaeA apresenta gratuitamente uma série de eventos astronômicos nas escolas públicas. São palestras, exposições, exibição de filmes, entre outros. O grupo também possui parcerias com clubes de Astronomia para viabilizar sessões ao vivo de observação do céu em algumas ocasiões.

O presidente do grupo avalia o impacto inicial das atividades como positivo. "A interdisciplinaridade da Astronomia ajuda o GaeA a moldar suas atividades conforme o currículo escolar. Muitos alunos não sabem que várias disciplinas abordadas nas escolas durante o ano letivo se desenvolveram graças às observações do céu. É essa lacuna que exploramos através de atividades adaptadas ao cotidiano dos estudantes", afirma Saulo.

Durante as atividades do GaeA junto às escolas, os representantes do grupo observam o grau de interesse dos alunos sobre questões que envolvem o Universo. "Somos constantemente 'bombardeados' com inúmeras perguntas sobre o cosmos durante os eventos. Isso é excelente, mas depois que vamos embora, que a novidade se vai, muito desse interesse se perde. O que as instituições ligadas à difusão científica estão fazendo é criar mecanismos para que o interesse pelo Universo não seja algo ocasional e sim permanente", destaca o presidente do grupo.

De acordo com ele, na Astronomia, demonstrações práticas vinculadas às abordagens teóricas e visuais ajudam a desenvolver a capacidade cognitiva das pessoas em idade de formação. "A Astronomia complementa o ensino formal, de forma que todo esse conteúdo pode influenciar o interesse do aluno e conseqüentemente a escolha por profissão ligada às ciências".

Ele lembra, ainda, que não existe no Brasil a Astronomia como disciplina obrigatória nas escolas. "Isso faz com que instituições amadoras e profissionais procurem criar alternativas para preencher essa lacuna na educação", finaliza.

Mais informações sobre o GaeA podem ser obtidas nos endereços: http://gaea-astronomia.blogspot.com/ ou http://gaea.cjb.net/ . O grupo também possui um twitter: http://twitter.com/GAEAastro/ .
( Fonte: Giselle Soares, Agência Funcap/Adaptado )


Data de publicação no Boletim: 25/12/2009
Editor(a) responsável: Carlos Eduardo Contato (CE), Boletim Supernovas

Citação bibliográfica (ABNT):
DIVULGAR PARA EDUCAR: O PAPEL DA DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NAS ESCOLAS PÚBLICAS DO CEARÁ. Fonte original: Giselle Soares, Agência Funcap/Adaptado. Boletim Supernovas: Boletim Brasileiro de Astronomia, ed. 545, Dez. 2009. Disponível em: < http://www.boletimsupernovas.com.br/edicao/545/noticia/2798/BSN_divulgar-para-educar-o-papel-da-divulgacao-cientifica-nas-escolas-publicas-do-ceara.htm >. Acesso em: 11 Fev. 2012.

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