Notícia
BSN edição 541 (26/11/2009 a 03/12/2009)
sessão ASTRONOMIA NO BRASIL
RESULTADOS DE UMA MANCHETE QUE NÃO EXISTIA
07/11/2009


O homem que contou ônibus para levar o céu a sua terra comprou um caminhão e saiu pelos quatro cantos desse país para dividir conhecimentos sobre estrelas e procurar decifradores de etiquetas longínquas.

Tal foi a surpresa ao receber nove páginas de histórias digitadas em letras tamanho doze, que já não era mais certo o fim que daria à pauta: era para falar sobre planetários, o que eles são, a importância na divulgação da ciência por este meio. Utilizaria aquela entrevista apenas como fragmentos de frases fechadas por aspas, jogadas em mais um mar de palavras objetivas e técnicas produzidas tal como apregoa o jornalismo. Aspas, vírgula, disse o professor Gesoaldo Maia de Oliveira, do Teatro das Estrelas.

A pauta mudou. Não limitaria aos porões de meu computador as palavras bonitas de um físico, planetarista, professor das ciências, apaixonado por uma atividade ainda pouco difundida em nosso país: o planetarismo. Ele foi o idealizador de uma das primeiras e mais bem-sucedidas experiências em planetário-móvel que existe no Brasil. Viajando país afora, já apresentou as estrelas para mais de 300 cidades e 400 mil pessoas, por meio de uma cúpula fixa itinerante de 180° que reproduz o céu pela latitude da cidade onde estaciona o Teatro. Aqui, fala de como começou a iniciativa, de sua paixão por essa ciência e da experiência que adquiriu em tantos anos de atividade. Abram-se as cortinas. Com a palavra, Gesoaldo Maia:

Como começou seu interesse por planetários?
Aos treze anos, por volta de 1970, estudava em um colégio interno na capital paulista e a direção levou todos os alunos ao Planetário do Ibirapuera. Na verdade foi uma grande surpresa, pois não foi explicado, muito menos informado aonde iríamos.

No meu caso a surpresa foi ainda maior, pois minhas leituras de lazer, já nesta idade, eram as "coisas" do Universo. Questionava meus superiores sobre as dúvidas que surgiam, mas quase nada me respondiam. Eu mesmo é que procurava as respostas para minhas dúvidas. Do meu jeito e do meu modo.

Até aquele momento não imaginava que o homem conseguia reproduzir um céu noturno com tanta perfeição. A apresentação era ao vivo, ou seja, não era uma sessão gravada. A locução do planetarista era perfeita. A sonoplastia previamente selecionada era comandada pelo próprio apresentador. Havia uma sintonia perfeita entre a narração e a sonoplastia dando para se imaginar quantas vezes aquela sessão tivera sido apresentada. Nem eu mesmo sabia que aquela atividade iria marcar definitivamente minha vida.

E, do interesse por planetários para o "Teatro das Estrelas", como foi isso?
A primeira coisa que me veio à cabeça, depois dessa sessão no Ibirapuera, era levar toda a população de minha cidade natal para assistir àquela maravilha.

Apesar de morar em são Paulo, fiquei contando a quantidade de ônibus que seriam necessários para levar toda a população de minha pequena cidade, localizada no noroeste do Estado do Paraná, com aproximadamente 10.000 habitantes, distante 700km de São Paulo, para assistir a uma sessão de cúpula no planetário do Ibirapuera. Doce ilusão de criança! Logo o sonho se foi por terra. Descobri que a façanha era simplesmente impossível.

Mais tarde, já com quase 20 anos, pensei que a solução seria comprar um planetário. Assim eu levaria para a minha cidade, improvisava uma cúpula e mostraria a "maravilha" para o meu povo, mas fiquei sabendo que o custo do equipamento era para poucos.

Os anos se passaram tomei diversos rumos na vida e num dia qualquer do ano de 1994, morando em Presidente Prudente, interior do Estado de São Paulo, agora com 37 anos, estava folheando o Jornal "Folha de São Paulo" e logo abaixo do número da página, encontrava-se a seguinte manchete: "PLANETÁRIO ESCOLAR MÓVEL". Continuei folheando, sem dar muita importância à manchete. Três ou quatro páginas adiante é que fez efeito a notícia que não tivera dado importância. Voltei as três ou quatro páginas que imaginara ter passado, mas não encontrei a tal manchete. Tornei a folhear e, nada... Novamente me impus a tarefa e novamente nada encontrei. O título não me saíra da cabeça e, mais cauteloso, iniciei novamente o ritual da folheação, novamente do início e mais esmiuçador. Por fim, fiquei convencido de que não havia absolutamente nenhum título, nem sequer uma "chamada" que se assemelhasse com aquele.

Fechei o jornal e me pus a pensar naquela informação fantasma. Mas então existe um instrumento pequeno, mais acessível? Logo, me coloquei a procurar o tal instrumento e, em 1995, estava inaugurando o planetário itinerante em Presidente Prudente.

Você comentou que o "Teatro das Estrelas" é diferente dos outros planetários itinerantes por apresentar estrutura rígida, ao invés de inflável. Quais são os efeitos dessa diferença?
Desde o início eu mesmo projetei uma estrutura que pudesse ser desmontada e facilmente transportada. Não que na estrutura inflável não se possa desenvolver um trabalho sério, mas o acesso das pessoas, a posição incômoda dos participantes, sentadas no chão ou sobre almofadas, a disposição dos instrumentos, a posição do planetarista, a falta de renovação do ar, a impossibilidade de utilizar alguns acessórios para incrementar as sessões, o balanço da estrutura provocada por participantes não muito interessados na sessão, leva o leigo a pensar que o planetário inflável, parecido com um pula-pula, é um trabalho infantil.

A intenção era quebrar esse conceito e mostrar que qualquer pessoa pode participar de uma sessão dentro de um planetário itinerante, sejam pessoas de idade, claustrofóbicos ou uma menina de mini-saia. Dessa forma também resolvemos o problema do ambiente muito quente, que tira a atenção dos participantes.

Dos 17 planetários itinerantes que constatei na minha dissertação, todos utilizam a estrutura inflável, porque ela pode ser carregada em um porta-malas, enquanto a estrutura rígida necessita de um pequeno caminhão, os custos aumentam e o tempo de instalação também. Mas, apesar de todas as dificuldades não se podem comparar as duas estruturas. Por isso o Planetário "Teatro das Estrelas" é um novo conceito de planetário itinerante.

Há cobrança de ingresso para as apresentações? Como o projeto se sustenta?
No começo do ano envia-se um folder para todas as escolas que estão em nosso banco de dados. São escolas particulares, municipais e estaduais, assim como instituições de ensino superior.
Aquelas que se interessam entram em contato para conhecer os detalhes de agendamento. É feito um levantamento das despesas de acordo com a quantidade de participantes, distância e data.
Algumas instituições repassam os valores para os participantes, outras assumem as despesas oferecendo as apresentações gratuitamente para sua comunidade.

O céu e os estudos astronômicos são motivo de muita curiosidade. É possível perceber isso durante as apresentações do "Teatro das Estrelas"?
O ambiente dos Planetários é extremamente rico, não somente quanto ao tema principal, mas também quanto ao espaço em si. Uma sala escura, todos sentados em circulo, uma acústica que força, o silêncio, o jogo de luzes que chama a atenção e uma expectativa extraordinária de saber como funciona tudo aquilo, principalmente quando se trata da primeira vez.

A inquietação dos olhos parece ser maior que a do cérebro; nas crianças por não conseguirem disfarçar; e nos adultos, por mal disfarçarem a admiração. Naquelas percebe-se uma pontinha de medo, nestes um ar de superioridade ingênua.

O ambiente de algumas sessões de cúpula cria toda uma "atmosfera". Existe um "clima" que é próprio desses lugares para a absorção de conhecimento. O nascer do Sol tingindo o horizonte de vermelho-púrpura é um fato rotineiro no dia-a-dia das pessoas, mas não em uma sala escura, não com uma sonoplastia meticulosa, não coletivamente, não guiada por um monitor que explica cada detalhe entre os efeitos atmosféricos e astronômicos.

O indivíduo se identifica e interage com aquele meio, há uma relação direta do sujeito com o objeto, mas há também toda uma expectativa, um "clima", uma "atmosfera", um estado emocional que supera, e muito, os trabalhos realizados na escola e na maioria dos espaços não-formais de transmissão de conhecimento.

Continue lendo a entrevista no link:
http://tinyurl.com/y8erk9d
( Fonte: Érica Nering, Revista Toque da Ciência )


Data de publicação no Boletim: 26/11/2009
Editor(a) responsável: Carlos Eduardo Contato (CE), Boletim Supernovas

Citação bibliográfica (ABNT):
RESULTADOS DE UMA MANCHETE QUE NÃO EXISTIA. Fonte original: Érica Nering, Revista Toque da Ciência. Boletim Supernovas: Boletim Brasileiro de Astronomia, ed. 541, Nov. 2009. Disponível em: < http://www.boletimsupernovas.com.br/edicao/541/noticia/2762/BSN_resultados-de-uma-manchete-que-nao-existia.htm >. Acesso em: 10 Fev. 2012.

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