Notícia
BSN edição 531 (17/09/2009 a 24/09/2009)
sessão ASTRONOMIA NO BRASIL
PROGRAMA ESTÁ ESTAGNADO POR FALTA DE VERBAS
30/08/2009


A Agência Espacial Brasileira (AEB) afirmou que até 2010 vai fazer uma nova revisão (a terceira em 12 anos) do Programa Nacional de Atividades Espaciais (PNAE). O objetivo é que o documento defina prioridades do setor até 2020. Paralelamente, a Câmara dos Deputados através do seu Conselho de Altos Estudos e Avaliação Tecnológica resolveu apresentar emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias para suprir o Programa. O Conselho realizou um estudo e vai encaminhar ao governo documento com sugestões sobre a política espacial.

O estudo foi elaborado através de um ciclo de estudos. Ele aponta alternativas como a transformação do PNAE em uma política de Estado. Os deputados também prevêem o aumento de recursos para a viabilização do programa, que tem como um dos objetivos o lançamento de primeiro satélite geoestacionário nacional, que possibilitará as comunicações e a segurança do espaço aéreo. A intenção AEB é lançar o satélite no prazo de dois anos.

O Conselho verificou que o programa está estagnado por conta do corte orçamentário de 22,5% e por isso decidiu apresentar emenda a Lei de Diretrizes Orçamentárias para que recursos sejam garantidos através do Fundo de Universalização do Sistema de Telecomunicações (Fust), para evitar a descontinuidade do programa.

E é exatamente essa descontinuidade que vem prejudicando o programa espacial brasileiro, que a cada governo sofre mudanças de rumo.

Enquanto o Brasil engatinha com seu programa espacial, outros países emergentes avançam. A China e India, estão muito a frente, inclusive, com previsão de terem missões tripuladas. A China lançou a sua primeira sonda lunar em outubro de 2007, concluindo com sucesso as missões científicas. O país planeja lançar sua segunda sonda antes de 2012.

Segundo informações do Governo chinês, a nave vai pousar em solo lunar, levando um veículo de exploração para realizar a análise do solo. O programa lunar chinês prevê ainda o emprego de mais de 90 tecnologias e projetos ainda em desenvolvimento.

Já a Índia completou no ano passado, com sucesso, sua primeira missão não tripulada à Lua. A sonda lunar se desligou da nave Chandrayaan-1 a aproximadamente 100 quilômetros da superfície da lua e pousou no pólo sul do satélite.

A Chandrayaan-1, uma espaçonave construída pela ISRO (agência espacial indiana), representa um impulso para as ambições espaciais do país. Em abril do ano passado os indianos já haviam colocado dez satélites em órbita, utilizando apenas um foguete. A meta agora é uma missão tripulada para o espaço e depois o próximo passo será Marte.

O Programa Espacial Brasileiro além cortes no orçamento, sofreu recentemente um golpe de misericórdia dado pela Justiça, ao inviabilizar a ampliação do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão.

A Justiça acabou reconhecendo uma comunidade quilombola dentro da área do Centro, que tem uma das melhores localizações para lançamentos de foguetes do mundo, por sua proximidade com a linha do equador, que possibilita a economia de combustível e levar mais equipamentos e material de pesquisa. O processo corria na Justiça desde 2003.

É ponto pacífico que a tecnologia espacial é indispensável para o controle de fronteiras, do desmatamento, para previsão do tempo, previsão de safras agrícolas, de fenômenos climáticos, comunicação e porque não dizer do controle de toda a área do pré-sal. Além disso o domínio da tecnologia aeroespacial é considerada fundamental para um País, como o Brasil que almeja fazer parte de organismos internacionais como o Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), já desenvolve tecnologia de produção de satélites e tem como desafio a produção de veículos lançadores de satélites.

A estimativa da AEB é que o Brasil tenha que investir R$ 200 milhões ao ano para desenvolver seu programa espacial, que prevê a implementação de um centro de lançamento de satélites e o domínio da tecnologia necessária para lançá-los e construí-los. Por enquanto, o Plano Plurianual (PPA) só garante a implantação do satélite de monitoramento do espaço aéreo e territorial brasileiro, o Satélite Geoestacionário Brasileiro, mas ainda sem previsão de recursos.

Desde a última revisão, o PNAE teve dois marcos: o lançamento, em 2007, de um satélite CBERS-2B, equipado com três câmeras de alta resolução para monitorar florestas, regiões costeiras e grandes cidades e o sucesso do teste, em 2008, com um dos motores do foguete do veículo lançador de satélites.

O ex-ministro da Ciência e Tecnologia e atualmente diretor-geral da empresa binacional Alcântara Cyclone Space (ACS), Roberto Amaral, declarou que o programa espacial brasileiro está em crise. Amaral apontou como as principais dificuldades a falta de coordenação política. Disse ainda que o programa espacial brasileiro está estagnado e vem sendo ultrapassado por países com menor infra-estrutura e menor estabilidade política, como o Irã e a Coréia do Norte. "Começamos a fazer o nosso programa em 1961 e, em 2009, não temos o nosso foguete de lançamento", criticou.

Nasa no Brasil
Roen monitora órbita de satélites

A qualidade dos resultados obtidos pelo Rádio Observatório, que fica na unidade do Instituto nacional de Pesquisas Especiais (INEP), no Eusébio, possibilitou a renovação do convênio com a Nasa por mais cinco anos.

O observatório que funciona desde 1993 - juntamente com uma rede mundial de radiotelescópios, é responsável por detectar irregularidades na rotação da Terra. Esta atividade serve para realizar pequenos ajustes nas órbitas dos satélites.

Sem esses ajustes os satélites da constelação GPS poderiam fornecer informações incorretas. Essas anomalias geofísicas da Terra são decorrentes de atividades vulcânicas e sísmicas, tsunamis, e até o fenômeno climático El Niño.

Há um esforço mundial para que essas medidas de irregularidades da rotação da Terra também possam ser usadas para a previsão de catástrofes naturais como terremotos. O ROEN começou a operar em 1993 e atualmente é coordenado pelo Centro de Rádio Astronomia e Astrofísica, Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, em cooperação com o INPE.

O Rádio-Observatório integra as redes internacionais de VLBI (de very long base line interferometry, ou numa tradução livre algo como: interferometria de muito longa linha de base) geodésico e vem contribuindo para o IERS (Serviço Internacional da Rotação da Terra), apoiando programas brasileiros de geodésia, cartografia e navegação fazendo uso de técnicas espaciais, tais como os levantamentos GPS e serviços de Hora Certa. O sistema consiste de uma grande antena de 14,2 metros de diâmetro, dotada da mais moderna e sofisticada instrumentação eletrônica.

Negócio lucrativo
País quer entrar no filão espacial

Em todo o mundo, menos de uma dezena de países domina totalmente as diversas etapas de um programa espacial completo, por ordem de entrada: Rússia (1957), EUA (1958), França (1965), Reino Unido, Japão (1970), China (1970), Índia (1980), Israel (1988) e Irã (2009). Coincidentemente esses mesmos países compõem o ´grupo atômico´, que domina o enriquecimento de urânio e têm tecnologia para produzir a bomba atômica.

O Brasil está buscando se gabaritar para entrar no negócio internacional espacial, que movimentou no ano passado cerca de US$ 170 bilhões. Em recente entrevista o presidente da AEB. Carlos Ganem afirmou que ficar de fora desse filão é desperdiçar uma oportunidade única.

Ganem, ao se pronunciar em reunião do Conselho de Altos Estudos Tecnológicos da Câmara, destacou que para que isso ocorra o País precisa seguir o cronograma de investimentos, para que o setor não sofra solução de continuidade.

Dentro dos investimentos planejados está a construção de uma nova Unidade de Lançamento de Foguetes, devido a impossibilidade do CLA ser ampliado. A Agência não indicou o local escolhido, mas vazou a informação de que terá cerca de 20 mil hectares, e ficará na costa Norte-Nordeste, entre o Amapá e o Rio Grande do Norte.

Lançamento
O Centro de Lançamento de Alcântara realizou com sucesso o lançamento de Foguetes de Treinamento Básico - FTB, este mês. A operação, denominada FogTrein I, teve como objetivo treinar equipes dos Centros de Alcântara (MA) e Barreira do Inferno (Natal-RN), recursos operacionais e equipamentos.

Os foguetes, fabricados pela empresa brasileira Avibras, com tecnologia quase 100% nacional, alcançaram altura máxima de 31.800 metros, atingindo uma velocidade de 4.100 km/h em quatro segundos, caindo após a trajetória em alto-mar a 16 quilômetros da costa.

O Fogtrein I serviu ainda para lançar e rastrear dois foguetes FTB. A operação ainda contou com a participação de engenheiros da Avibras, da Agência Espacial Brasileira (AEB), do CLBI e do Instituto de Fomento e Coordenação Industrial (IFI).

Apesar dos altos e baixos em termos de prioridade, o pouco investimento às atividades espaciais no Brasil trouxe benefícios dos mais diversos: pesquisas medicamentos, materiais e equipamentos eletrônicos, cartografia utilizando satélite, imagens em tempo real da localização de queimadas e desmatamento, e informações meteorológicas.

Os foguetes são um pilar do programa espacial brasileiro, desde sua criação em 1961. O primeiro deles, um Nike-Apache, decolou em 1965, do Rio Grande do Norte. De lá para cá, centenas de foguetes foram lançados, tanto de Alcantara como de Natal. O Centro de Lançamento de Foguetes de Alcântara surgiu na década de 80, com o objetivo de dotar o País de um local para envio de engenhos espaciais. Sua instalação trouxe, dessa forma, a possibilidade de o Brasil lançar, a partir do próprio território, foguetes de sondagem e veículos lançadores de satélites.

Já a partir de 1994, com a criação da AEB, o País passou a ter um órgão centralizador que motivou a comunidade científica a participar do desenvolvimento de pesquisas na área. A ANB criou então os programas de Microgravidade e Uniespaço, destinados a fomentar projetos de pesquisas de interesse, tanto de universidades, como do setor espacial.

FIQUE POR DENTRO
Programa substituiu a Missão Espacial em 1996

Publicado em agosto de 1996, em substituição à Missão Espacial Completa Brasileira (MECB), criada em 1979, o PNAE estabelece objetivos e diretrizes que norteiam as ações governamentais para a Política Nacional de Desenvolvimento de Atividades Espaciais (PNDAE). O MECB foi responsável por estabelecer o primeiro programa espacial brasileiro de grande porte e de longo prazo, ao definir metas como o desenvolvimento de pequenos satélites de coleta de dados.
( Fonte: MARCELO RAULINO, Diário do Nordeste )


Data de publicação no Boletim: 17/09/2009
Editor(a) responsável: Carlos Eduardo Contato (CE), Boletim Supernovas

Citação bibliográfica (ABNT):
PROGRAMA ESTÁ ESTAGNADO POR FALTA DE VERBAS. Fonte original: MARCELO RAULINO, Diário do Nordeste. Boletim Supernovas: Boletim Brasileiro de Astronomia, ed. 531, Set. 2009. Disponível em: < http://www.boletimsupernovas.com.br/edicao/531/noticia/2659/BSN_programa-esta-estagnado-por-falta-de-verbas.htm >. Acesso em: 10 Fev. 2012.

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