Notícia
BSN edição 499 (05/02/2009 a 12/02/2009)
sessão ASTRONOMIA NO BRASIL
BRASIL PRECISA DAR APOIO A FOGUETE, AFIRMA UCRANIANO
02/02/2009


O acordo entre Brasil e Ucrânia para lançar foguetes desde Alcântara (MA) enfrenta dificuldades de instalação por causa da presença de comunidades quilombolas na região, mas não corre risco de ser rompido. Para ser realizado, porém, o projeto precisa ter garantido o apoio contínuo de ambos os governos, afirma o general Oleksandr Serdyuk, codiretor da empresa binacional que os dois países criaram para a iniciativa. E há clima de pressa. Mesmo sem uma base construída, os dois países já negociam contratos com empresas que querem lançar satélites. "É preciso entender que esse tipo de projeto grande não é possível sem apoio político na área de construção", disse o ucraniano ontem à Folha, em entrevista por telefone. "Esses projetos só são realizados pelo fato de definirem a imagem de um país, e só podem ser realizados mediante apoio total dos governos." Serdyuk divide hoje o comando da binacional ACS (Alcântara-Cyclone Space) com o brasileiro Roberto Amaral, ex-ministro da Ciência e Tecnologia, que tem reclamado de restrições que a demarcação de terras quilombolas na região estaria impondo ao crescimento do programa. Já houve um acordo para divisão de áreas, mas a ACS diz que está impedida de realizar seu estudo de impacto ambiental para iniciar o projeto. Segundo a empresa, isso requer acesso temporário a terras de duas comunidades da região, e os quilombolas não o estão concedendo. O primeiro lançamento de um foguete ucraniano Cyclone-4 desde Alcântara está previsto para o final de 2010. Ainda não há risco de atraso, diz Serdyuk, mas pode haver caso não se chegue a um acordo. "Não se trata aqui de querermos receber privilégios", diz. "Estamos dentro do prazo e estamos apresentando toda a documentação correta." Ontem, a Ucrânia lançou pela última vez um foguete Cyclone-3, que está sendo aposentado para dar lugar aos modelos da geração 4. Os novos foguetes, porém, só poderão ser lançados após um acordo. "No que diz respeito a técnica e prudência, o Cyclone-4 só poderá ser lançado do sitio de lançamento que for criado em Alcântara", diz Serdyuk, que nega haver risco de qualquer rompimento no acordo entre os dois países. A ACS tem como meta conseguir conquistar até 10% do mercado de lançamento de satélites de porte grande -da ordem de 5 toneladas, no caso de órbitas baixas. Para isso, diz Serdyuk, é preciso conquistar credibilidade. "Não é um mercado simples", diz. "É necessário ter um trabalho muito bem feito, cumprir todos os prazos, incluindo o do primeiro lançamento que prometemos aos nossos contratantes." Por ser um lançamento com caráter de teste, o primeiro voo do Cyclone-4, na verdade, levará de graça ao espaço um satélite experimental da Universidade de Tóquio (Japão). A empresa, porém, já começou a antecipar negociações para futuros lançamentos comerciais. "Estamos conversando com empresas da Argentina, EUA e Europa", diz Serdyuk. Se depender do talento diplomático do ucraniano, talvez não seja difícil chegar a um acordo com os quilombolas. Após a dissolução da antiga União Soviética, em 1991, ele foi um dos articuladores da entrega à Rússia das armas nucleares que estavam na Ucrânia. Especialista em foguetes, depois se afastou do exército ucraniano para tocar o projeto espacial de caráter civil do país. Um comunicado emitido na quarta-feira pelo Palácio do Planalto afirma que a Seppir (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial) vai "intermediar o impasse entre os quilombolas e a empresa binacional" para "a conclusão do estudo de impacto ambiental." Na opinião da antropóloga Maristela de Paula Andrade, da Universidade Federal do Maranhão, porém, não será simples solucionar a questão. A pesquisadora diz que os quilombolas têm direito a pedir controle de acesso a suas terras, e engenheiros estavam circulando na área sem autorização prévia. "Há legislação tanto no nível internacional quanto no nível do país que protege os direitos desses grupos", diz Andrade. "Eles já estavam lá quando os militares planejaram essa base, mas era o período da ditadura, e eles não conseguiram resistir."
( Fonte: Rafael Garcia, Folha de SP )


Data de publicação no Boletim: 03/02/2009
Editor(a) responsável: Carlos Eduardo Contato (CE), Boletim Supernovas

Citação bibliográfica (ABNT):
BRASIL PRECISA DAR APOIO A FOGUETE, AFIRMA UCRANIANO. Fonte original: Rafael Garcia, Folha de SP. Boletim Supernovas: Boletim Brasileiro de Astronomia, ed. 499, Fev. 2009. Disponível em: < http://www.boletimsupernovas.com.br/edicao/499/noticia/2252/BSN_brasil-precisa-dar-apoio-a-foguete-afirma-ucraniano.htm >. Acesso em: 10 Fev. 2012.

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