Astros e estrelas da astronomia de 140 países poderão se projetar sob as luzes do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, devidamente reformado, no ato de abertura da 27ª Assembléia da União Astronômica Internacional (IAU, em inglês), a realizar-se de 3 a 14 de agosto de 2009, como parte do Ano Internacional da Astronomia, decretado pelas Nações Unidas. Nada mais justo e merecido do que marcar com a intensa luminosidade do Teatro Municipal, novo de novo, um encontro de tão grande relevância histórica e científica. A cerimônia inaugural terá, com certeza, o privilégio de contar com a presença centenas de líderes de atividades científicas e tecnológicas, além de inúmeras autoridades, inclusive do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e do ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende. Mas o brilho previsível desta festa ainda não está garantido. A direção do Teatro ainda não respondeu às solicitações para que ele seja o palco da instalação do magno evento internacional. Por isso, permitam-me fazer um apelo público à presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio, Carla Camurati: não deixe de atender aos pedidos feitos. O esplendor desse patrimônio cultural que completará um século e que tanto orgulha a cidade maravilhosa só será enriquecido com a acolhida à maior conferência de astrônomos do mundo, justamente quando o planeta vai comemorar os 400 anos das observações pioneiras de Galileu Galileu (1564-1642). As luzes do Rio de Janeiro, na ocasião, darão realce a um dos objetivos centrais da 27ª Assembléia da União Astronômica Internacional: preservar a escuridão do céu noturno, para melhor estudá-lo. A escuridão natural tem diminuído, enquanto aumenta a iluminação artificial. Segundo o Le Monde (30/12), a Via Láctea desapareceu do céu noturno das cidades. Em média, são vistas apenas algumas dezenas de estrelas, contra mais de duas mil no campo. O mapa-mundi noturno, publicado em 2001 pelo astrônomo iltaliano Cinzano, revela que 20% da face do globo já foram afetados, sobretudo no hemisfério norte, e que o manto luminoso prejudicial às observações astronômicas amplia-se à razão de 5% ao ano na Europa. Não se trata de "apagar" as cidades, muito menos o Rio de Janeiro, mas de evitar a "poluição luminosa", o desperdício, a malversação, o uso irracional de energia e luz. Isto também faz parte do desenvolvimento sustentável e da construção de uma "sociedade conscientemente orientada", para usar a expressão em boa hora cunhada por Tarso Genro, ministro da Justiça e inspirado ensaista. Para enfrentar a questão, astrônomos franceses lançam, em 11 de junho de 2009, o projeto de criação da "reserva internacional de céu estrelado", nos Pirineus, como contribuição da França ao Ano Internacional da Astronomia. Há um precedente em Quebec, Canadá: em 2007, demarcou-se a área de proteção de 5,5 km², com o raio de 50 km, em torno do observatório de Mont-Mégantic. Mas os Pirineus têm a vantagem de um "escudo" legal: "As emissões de luz artificial que ofereçam perigos ou causem transtorno excessivo às pessoas, à fauna, à flora ou aos ecossistemas, gerando desperdício de energia ou impedindo a observação do céu noturno estarão sujeitas a medidas de prevenção, de repressão ou de limitação", reza o artigo 36 da lei aprovada em outubro de 2008. Como já se pode ver, o Rio será palco de idéias iluminadas. José Monserrat Filho é chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do Ministério da Ciência e Tecnologia.
Data de publicação no Boletim: 13/01/2009
Editor(a) responsável: Carlos Eduardo Contato (CE), Boletim Supernovas
Citação bibliográfica (ABNT):
AS LUZES DA ASTRONOMIA MUNDIAL NO RIO. Fonte original: José Monserrat Filho, JC. Boletim Supernovas: Boletim Brasileiro de Astronomia, ed. 496, Jan. 2009. Disponível em: < http://www.boletimsupernovas.com.br/edicao/496/noticia/2218/BSN_as-luzes-da-astronomia-mundial-no-rio.htm >. Acesso em: 10 Fev. 2012.
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